Brasília não é uma, são trinta (ou mais!)

Estou fazendo uma pesquisa na faculdade que tem como uma de suas etapas a leitura de reportagens de jornal relacionadas com o patrimônio cultural de Brasília. No meio dessas leituras, encontrei uma crônica muito sensível com a qual me identifiquei.

Trata-se da Crônica da Cidade, escrita por Conceição Freitas, publicada no Correio Braziliense do dia 28 de outubro de 2009. O foco inicial é sobre Ceilândia, mas tem muito a ver com a maioria dos bairros e da população de Brasília. Eu, que sempre morei no Gama (não em Gama!) e gosto muito daqui, (apesar de todas as limitações) acho que a autora acertou bem. Vale a pena ler até o fim!

Depois que me perdi e me achei no Riacho Fundo, no I e no II, um jovem leitor, estudante do curso de história, ceilandense de nascimento, me convidou a ir ao P Sul. Perguntei a ele — pura provocação — o que de bom havia ao sul de Ceilândia. Transcrevo a resposta: “O PSul tem várias coisas boas e que chamam atenção: um sítio arqueológico na Chácara Santa Terezinha nº 112. Ele foi descoberto em 1996 pelo arqueólogo Eurico Teófilo Mulher. Os primeiros fósseis, pedras e pontas de flechas de cristal foram encontrados em 1997, com data indicativa de 10 mil anos. Tem a única obra de Oscar Niemeyer fora de Brasília, que é a Casa do Cantador e foi feita para homenagear a comunidade nordestina que habita por aqui. Tem também o Museu da Limpeza Urbana. Tem as ruas sem asfalto, as escolas classes, os centros de ensinos, o futebol, o pique-esconde, o polícia e ladrão, o pique-pega, o frete na feira, a venda de din-din, as festas juninas, as copas do mundo, o trabalho, a faculdade, a esquina da minha rua, as grandes amizades. Falta bastante investimento em educação, saúde, lazer, segurança. Mas, ao longo desses 25 anos, muita coisa mudou para melhor. O convite está de pé.”

Deu pra notar o doce afeto que o ceilandense de 25 anos tem pela cidade onde nasceu? Posso apostar que é essa a atmosfera afetiva dos nascidos em todas as cidades- satélites. O brasiliense não é um tipo homogêneo. E também não é a soma das migrações. O brasiliense tem dupla naturalidade: a de ter nascido no quadradinho e a de ter nascido na cidade-satélite onde nasceu. O brasiliense do Plano Piloto é um tipo muito diferente do brasiliense de Ceilândia, por exemplo. O primeiro guarda certa altivez própria de quem vive na geografia do poder. O de Ceilândia tem uma cordialidade meio nordestina. O brasiliense das cidades-satélites tem duas histórias pra contar: a da capital construída em três anos e meio, sonho de Juscelino, etecétera e tal; e a história de como surgiu o lugar onde nasceu. Foi também uma epopeia — a maioria delas nasceu da teimosia popular. Querer-querer, nenhum governador queria construir novas cidades. Os brasilienses do Plano Piloto queriam Brasília só pra si, cercadinha de privilégios e de qualidade de vida. Mas, desde a terrível seca de 1958, que trouxe para a Cidade Livre levas de migrantes desterrados e Taguatinga teve de ser criada do dia para a noite, os brasileiros anunciaram que a nova e moderna capital do país pertenceria a muito mais que 500 mil habitantes. Brasília não é uma só, são 30, e cada uma das cidades tem uma história pra contar. Brasília é o Gama, Taguatinga, Brazlândia, Sobradinho, o I e o II. É Planaltina, Paranoá, Núcleo Bandeirante, Ceilândia, é o Guará, o Cruzeiro, Samambaia, Santa Maria, São Sebastião, Recanto das Emas. Brasília é o Riacho Fundo I e o II, os dois lagos, a Candangolândia. É Águas Claras, Sudoeste, Varjão, Park Way, Jardim Botânico, Vicente Pires. É o SIA e o SCIA, que vem a ser Setor Complementar de Indústria e Abastecimento. Brasília são 30.

Achei tão legal o texto. Realmente, quem é de fora às vezes acha que Brasília é uma coisa só. Sabe apenas daquele miolinho, mas é muito mais! Cada local tem um perfil diferente, e mesmo que mora por aqui tem um conhecimento bem limitado. Eu mesma, ainda conheço pouco do DF, mas tenho vontade de descobrir os cantos peculiares desse quadrilátero central.

Beijos

Sam

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