Arquivo para ‘Urbanismo’

16.06.2011

Brasília não é uma, são trinta (ou mais!)

Estou fazendo uma pesquisa na faculdade que tem como uma de suas etapas a leitura de reportagens de jornal relacionadas com o patrimônio cultural de Brasília. No meio dessas leituras, encontrei uma crônica muito sensível com a qual me identifiquei.

Trata-se da Crônica da Cidade, escrita por Conceição Freitas, publicada no Correio Braziliense do dia 28 de outubro de 2009. O foco inicial é sobre Ceilândia, mas tem muito a ver com a maioria dos bairros e da população de Brasília. Eu, que sempre morei no Gama (não em Gama!) e gosto muito daqui, (apesar de todas as limitações) acho que a autora acertou bem. Vale a pena ler até o fim!

Depois que me perdi e me achei no Riacho Fundo, no I e no II, um jovem leitor, estudante do curso de história, ceilandense de nascimento, me convidou a ir ao P Sul. Perguntei a ele — pura provocação — o que de bom havia ao sul de Ceilândia. Transcrevo a resposta: “O PSul tem várias coisas boas e que chamam atenção: um sítio arqueológico na Chácara Santa Terezinha nº 112. Ele foi descoberto em 1996 pelo arqueólogo Eurico Teófilo Mulher. Os primeiros fósseis, pedras e pontas de flechas de cristal foram encontrados em 1997, com data indicativa de 10 mil anos. Tem a única obra de Oscar Niemeyer fora de Brasília, que é a Casa do Cantador e foi feita para homenagear a comunidade nordestina que habita por aqui. Tem também o Museu da Limpeza Urbana. Tem as ruas sem asfalto, as escolas classes, os centros de ensinos, o futebol, o pique-esconde, o polícia e ladrão, o pique-pega, o frete na feira, a venda de din-din, as festas juninas, as copas do mundo, o trabalho, a faculdade, a esquina da minha rua, as grandes amizades. Falta bastante investimento em educação, saúde, lazer, segurança. Mas, ao longo desses 25 anos, muita coisa mudou para melhor. O convite está de pé.”

Deu pra notar o doce afeto que o ceilandense de 25 anos tem pela cidade onde nasceu? Posso apostar que é essa a atmosfera afetiva dos nascidos em todas as cidades- satélites. O brasiliense não é um tipo homogêneo. E também não é a soma das migrações. O brasiliense tem dupla naturalidade: a de ter nascido no quadradinho e a de ter nascido na cidade-satélite onde nasceu. O brasiliense do Plano Piloto é um tipo muito diferente do brasiliense de Ceilândia, por exemplo. O primeiro guarda certa altivez própria de quem vive na geografia do poder. O de Ceilândia tem uma cordialidade meio nordestina. O brasiliense das cidades-satélites tem duas histórias pra contar: a da capital construída em três anos e meio, sonho de Juscelino, etecétera e tal; e a história de como surgiu o lugar onde nasceu. Foi também uma epopeia — a maioria delas nasceu da teimosia popular. Querer-querer, nenhum governador queria construir novas cidades. Os brasilienses do Plano Piloto queriam Brasília só pra si, cercadinha de privilégios e de qualidade de vida. Mas, desde a terrível seca de 1958, que trouxe para a Cidade Livre levas de migrantes desterrados e Taguatinga teve de ser criada do dia para a noite, os brasileiros anunciaram que a nova e moderna capital do país pertenceria a muito mais que 500 mil habitantes. Brasília não é uma só, são 30, e cada uma das cidades tem uma história pra contar. Brasília é o Gama, Taguatinga, Brazlândia, Sobradinho, o I e o II. É Planaltina, Paranoá, Núcleo Bandeirante, Ceilândia, é o Guará, o Cruzeiro, Samambaia, Santa Maria, São Sebastião, Recanto das Emas. Brasília é o Riacho Fundo I e o II, os dois lagos, a Candangolândia. É Águas Claras, Sudoeste, Varjão, Park Way, Jardim Botânico, Vicente Pires. É o SIA e o SCIA, que vem a ser Setor Complementar de Indústria e Abastecimento. Brasília são 30.

Achei tão legal o texto. Realmente, quem é de fora às vezes acha que Brasília é uma coisa só. Sabe apenas daquele miolinho, mas é muito mais! Cada local tem um perfil diferente, e mesmo que mora por aqui tem um conhecimento bem limitado. Eu mesma, ainda conheço pouco do DF, mas tenho vontade de descobrir os cantos peculiares desse quadrilátero central.

Beijos

Sam

26.04.2010

Há muito mais de 50 Anos

Brasília completou 50 anos, e não podemos dizer que há muito o que comemorar. Já que nosso presente não está lá muito bonito, vamos voltar ao passado, e rememorar desde os primeiros ideais da capital centrada no planalto brasileiro, à concretização do imaginário.

“Desde o início da colonização portuguesa, cidades e vilas foram projetadas e construídas no Brasil. A primeira foi Salvador, fundada para ser a capital do Governo Geral, em 1549. Ao longo do século XVI e, principalmente, a partir do final do século XVII e em todo o XVIII, muitas outras foram construídas, numa política deliberada de ultrapassar a linha imposta pelo tratado de Tordesilhas. (…) A ocupação do território tornou-se novamente questão essencial a partir da proclamação da República em 1889.”¹

1761 – Por volta de 1761, o Marquês de Pombal “… pensa em erguer no sertão uma cidade, não apenas Capital da Colônia, mas do Reino, a meio caminho da África e das Índias, na rota das linhas vitais do seu comércio”.

1808-1813 – O jornalista Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça almeja, através de sucessivos artigos do jornal Correio Braziliense, empolgar a opinião pública com a idéia da construção de uma nova capital no interior do Brasil, dando à idéia uma amplitude até então inédita. Hipólito desbancava o Rio de Janeiro por não ter “nenhuma das qualidades que se requerem na cidade, que destina a ser a Capital do Império do Brazil”.

1822 – É sugerido o nome Brasília, para uma nova capital do país, em publicação anônima que circulou no Rio de Janeiro no ano de 1822.

1823 – José Bonifácio de Andrada e Silva (figura de maior prestígio da elite brasileira nas primeiras décadas do século 19. Foi convidado por D. Pedro para liderar seu Ministério, assumindo a pasta do Reino e dos Estrangeiros. Elaborou o para servir de base à Constituição da Nação Portuguesa que se estava elaborando em 1822, e neste, propunha que a capital fosse transferida para o interior do País, a fim de estimular o seu povoamento. E sugere: “Essa capital poderá chamar-se Petrópolis ou Brasília”. Ficou com o mérito de ter sido o primeiro a laçar o nome oficialmente, e é citado no relatório de Lúcio Costa.

1891 - Já na primeira Constituição republicana, foi estabelecida a implantação da nova capital do Brasil no Planalto Central. Artigo terceiro: “Fica pertencente à União, no Planalto da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

1892 – O governo Floriano Peixoto convoca uma equipe, liderada por Luiz Cruls (militar e astrônomo, diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro), para determinar a locação do Distrito Federal. Em sete meses a Comissão percorre mais de quatro mil quilômetros do Planalto Central Brasileiro, elaborando um minucioso levantamento sobre a topografia, o clima, a hidrografia, a geologia, a flora, a fauna, recursos minerais e materiais de construção existentes na região. Em seu relatório, Cruls recomenda que a capital seja instalada acima de 1000 metros de altura, e que integre as três principais bacias brasileiras. A altitude garantiria a pureza das águas da região, que nascem no local, não passando por outros lugares.

primeiro mapa do Brasil com a demarcação do futuro Distrito Federal - Quadrilátero Cruls

1922 – No ano do centenário da independência brasileira é lançada a pedra fundamental da nova capital, no Morro Centenário, local onde hoje existe Planaltina.

1940 – O presidente Getúlio Vargas lança a “Marcha para o Oeste”, e retoma a questão da ocupação do interior do país com a criação da “Fundação Brasil Central”, mas, inicialmente, não pretende transferir a capital para o interior. O projeto de mudança foi adiado desde a instalação da ditadura do Estado Novo.

1946 - O Brasil se redemocratiza. Com a revisão constitucional, a mudança da Capital para o Planalto Central é incluída. Em novembro, o presidente Eurico Gaspar Dutra nomeia a Comissão de Localização da Nova Capital, chefiada pelo General Djalma Polli Coelho, para ratificar ou retificar os levantamentos feitos pela Missão Cruls. A Comissão Polli Coelho, após dois anos de trabalho, referenda o Quadrilátero Cruls como sendo o local ideal para se construir a nova Capital.

1953 – Getúlio propõe a mudança da capital em votação, e é aprovada. A Lei nº. 1803 autoriza o governo a definir o sítio da nova Capital, em três anos. O presidente nomeia nova comissão, presidida pelo general Aguinaldo Caiado de Castro, que contrata a firma americana Donald Belcher & Associates Incorporated, para fazer a interpretação dos levantamentos aerofotogramétricos realizados pela companhia aérea Cruzeiro do Sul e escolher o sítio ideal para se construir a nova Capital Federal. A firma indicou cinco sítios identificados em mapa por cores diferentes.

Os sítios 1 (castanho) e 2 (verde) estavam presentes no retângulo de Cruls; O Sítio 3 (azul) no Góias, abrange Luziânia; Sítio 4 (vermelho) na divisa Minas/Goiás; Sítio 5 (amarelo) – o mais distante da atual locação, era próximo a cidades pré existentes e a uma estrada de ferro.

fonte, com adaptações

1954 – Getúlio Vargas comete suicídio. Café Filho toma a liderança do país, mas se afasta após enfarto. O presidente da Câmara dos Deputados (da oposição) assume, mas leva golpe, sendo substituído pelo Presidente do Senado até que Café Filho volta ao poder. É escolhido o Sítio Castanho para acolher a cidade.

1956 – Juscelino Kubitschek assume a presidência. A agitação política acentua a necessidade de mudança da capital. Há oposição, a exemplo do movimento Riocapital. Um dos argumentos era que a capital deveria situar-se no litoral, visto que 35 dos 50 milhões de habitantes do país ocupavam esta região. Os que eram a favor enxergavam uma chance de ampliar o mercado nacional. Goianos também eram favor da localização da nova capital.

1956Abril – Juscelino manda ao congresso projeto de lei criando uma Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (NOVACAP). Setembro – é publicado o Edital de Concurso para o Plano Piloto da Nova Capital do Brasil.

CONCURSO

O obrigatório à apresentação da proposta era extremamente simplificado: traçado básico e relatório justificado. Não estavam discriminados parâmetros de dimensão ou população para a nova cidade, nem os prédios públicos que deveriam ser construídos. “As preocupações do governo se limitavam a construção de uma cidade, não considerando quem iria habitá-la ou que edifícios ela deveria conter”¹

Depois de questionada pelos concorrentes, a NOVACAP responde, em carta assinada por Oscar Niemeyer (diretor técnico da NOVACAP), ao Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil:

“permanece a atual organização ministerial acrescida de três ministérios. Só 30% dos funcionários serão transferidos (…). Previsão para 500.000 habitantes, no máximo”

1957 – Júri do Concurso se reúne para analisar as 26 propostas. Sete destas foram premiadas, e a de Lúcio Costa foi a escolhida.

1959 – Segundo o IBGE, cerca de 60 mil operários trabalhavam na construção da cidade. Faltando pouco mais de um ano para a inauguração, já contava-se em Brasília e arredores mais de 100 mil habitantes.

1960 – Oficialmente transferida a Capital do Rio de Janeiro para Brasília.

Alguns dos fatores que motivaram a mudança da capital:

Desenho urbano e arquitetura do Rio de Janeiro pouco adequada às tarefas políticas e administrativas do país;

Falta de segurança. Residência presidencial do Rio de Janeiro era muito exposta;

Almejo de monumentalidade;

Edifícios do governo eram pouco visíveis ou inadequados por ocuparem prédios que haviam sido construídos com outra finalidade;

Fontes: ¹Uma Outra Brasília – Antônio Carlos Carpintero; infobrasília ; estadão ; GDF


Postzinho histórico que quase ninguém vai ler todo, mas certeza que alguém vai copiar pra por no trabalho de história ou urbanismo! hehe

Beijos, Samara!

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